Quem disse que viajar a trabalho é gostoso?
Eu achava que era. Não é, é correria, muito trabalho, muito relatório, muita responsabilidade e nada de diversão. Sempre digo que viajar a trabalho é começar a trabalhar a partir do momento em que se fecha a mala em cima da cama. Só paramos quando abrimos outra vez a mesma mala, em casa, de volta. Claro, existem momentos de descanso e é aí que tentamos desfrutar mais do lugar em que estamos.
Fiz uma viagem por três países da América do Sul, Colômbia, Peru e Chile, em quatro grandes cidades, do dia 2 até o dia 10 de janeiro do ano passado, e alguns mitos caíram para mim. Vamos a eles:
1º Mito: Colômbia é muito quente!
Saí de viagem levando um casaco na mochila, um leve, que costumo usar no inverno carioca. O levei por desencargo de consciência, já que pensei que estava indo para duas cidades extremamente tropicais, Bogotá e Medellín. Ledo engano.

Medellín, 7h da manhã, 8ºC
Logo que cheguei sofri um golpe cruel. Bogotá, a capital da Colômbia, está a 2.640m acima do nível do mar, temperatura: 6ºC! O clima mais frio que eu já enfrentei em toda minha vida.
Em seguida, dois dias depois, fui pra Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia, a mais avançada industrialmente, 200m mais baixa que Bogotá, e o clima estava em 26ºC (um calor desgraçado, seco) de tarde e de noite 12ºC!
2º Mito: Peruanas não são bonitas.
Ok, era um mito machista e sobre tudo preconceituoso, mas estou sendo sincero, eu achava isso. Andando um pouquinho por Lima, capital do Peru, me dou conta que estou virando a cabeça sempre que uma mulher passa.
Pois é, elas são bonitas, são bem arrumadas, maquiadas (com discrição) e nada vulgares. Algumas mais modestas, trazem rasgos mais indígenas, com seus cabelos negros e nariz mais adunco, mas ainda assim são bonitas. As adolescentes, todas que vi, são muito preocupadas com a aparência, sempre com cortes de cabelo modernos e vestidas com roupas da moda, não necessariamente de marca.
3º Mito: O Chile é frio!

Você vê neve nos montes ao fundo?
Vamos lá, sempre que nos mostram fotos de Santiago, a capital do Chile, vemos ao fundo aquelas lindas cordilheiras nevadas. Pois é, levei aquele casaquinho que lhes falei para encarar o suposto friozinho chileno. Me ferrei!
Em Santiago os termômetros marcavam 27ºC com um detalhe mórbido: em nenhum lugar havia ar condicionado! Exatamente, senhoras e senhores, nem mesmo no quarto de hotel em que estava hospedado. Reclamando com a recepção, pedi um ar condicionado portátil e a camareira me trouxe um ventiladorzinho de mesa.
O metrô lá é muito parecido com o nosso, muito limpo e eficiente, com 5 linhas abrangendo boa parte da cidade, mas sem ar condicionado.
4º Mito: Chile, Peru e Colômbia são mais atrasados que o Brasil.
Nada disso! Todas as 4 grandes cidades por que passei são sofisticadas, modernas e arriscaria dizer “americanizadas”.
Em Bogotá e Medellín vi um número muito grande de carros novos – diferente de Buenos Aires, por exemplo – e importados, muitos deles asiáticos. Os tranportes urbanos (ônibus, trêns, taxis) apesar de aparentarem velhice são muito eficientes. Na TV, propagandas de toda sorte de produtos, desde os videogames mais novos até os cosméticos mais modernos. As pessoas andam bem arrumadas, apesar de algumas serem muito pobres, e quase não vi pedintes.
Em Santiago, no Chile, vi o maior número de pessoas utilizando celulares por metro quadrado em toda a minha vida. Notebooks, palmtops, MP3 players, iPods, infestavam os bares, restaurantes, metrô e ruas por onde passei. Notei também que muitos usam seus celulares como players portáteis; sempre cruzava com alguém com fones de ouvidos que levavam até um celular na mão ou no bolso.

Zona nobre de Lima
Lima, principalmente próximo a costa do Pacífico, a sofisticação e a modernidade são tangíveis. Ruas limpas, casas pintadas, jardins floridos, lojas de marcas internacionais. Nem em Ipanema vi tantas grifes extrangeiras. Nas zonas mais pobres de Lima vi carros, vans e ônibus novos, apesar de aparentarem uso. Me surpreendi com a limpeza, apesar do alto índice de poluição no ar, as ruas, calçadas e praças são limpas, claro, com as nojentas guimbas de cigarro aqui e ali.
Ah, outro fato interessante: diferente de Buenos Aires e Córdoba, nestas quatro cidades vi bem pouca gente fumando. Vi mais jovens chilenos fumando cigarros na área descoberta de um shopping que em toda a viagem.
5º Mito: Latinos, em geral, são desinformados.
Como se ouve rádio em estes países! Isso eu já havia notado em Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, que em todo lugar tem um rádio ligado. Até mesmo nas lojas de roupas, que aqui no Rio de Janeiro sempre tem um CD de dance tocando, têm algum programa de rádio rolando, com notícias, entrevistas e muita música.
Nos taxis em que andei sempre havia música tocando no rádio, não só do país, mas também de outros lugares. Em Santiago ouvi Roberto Carlos cantando em espanhol, e o taxista disse que quando ele esteve no festival de Viña Del Mar, nos anos 70, foi o melhor show da vida dele. No rádio os programas sempre informam sobre economia, notícias internacionais e política local. Às vezes, entre um trajeto e outro, me pegava acompanhando alguma entrevista ou matéria.

Músicos tocando nas ruas de Buenos Aires
A programação musical é muito variada, mas se escuta muita coisa local. Porém, nas quatro cidades desta viagem escutei muito reggaeton, ritmo que está muito na moda lá fora. Em outubro do ano passado também pude escutar muito este estilo musical em Buenos Aires e Córdoba. Nos países latinos é comum escutar músicas de outros lugares, principalmente o rock vindo da Argentina, do México e da Espanha.
Outro detalhe importante é o consumo de jornais. Nas bancas há sempre uma variedade incrível de periódicos e diários, e é normal encontrar jornais vespertinos. No metrô há sempre muitas pessoas lendo jornais, de todas as idades.
Estes foram os mitos que caíram para mim.
As viagens que fiz, de uma cidade outra, entre um aeroporto e outro, foram muito cansativas, algunas desgastantes, mas serviram para que eu entrasse em contato com estas culturas, que apesar de cosmopolitas, têm lá suas peculiaridades.
Pelas janelas dos hotéis e dos taxis, pude ver cidades bonitas, seculares, reais. Em cada rosto um traço distinto do que estava acostumado a ver, uma história, e sempre que via uma feição familiar, que me fizesse lembrar de algum conhecido, me atacava uma forte saudade de casa.