
Protesto em Santiago, Chile
Vou ser sincero com você, eu odeio pixações e grafites, que considero a mesma coisa.
Você vai me chamar de careta, como muita gente me chama, afinal, grafite está na moda, é o ápice da “arte de rua”, da “intervenção” e diferencia-se da pixação por ter sido elevada ao patamar de arte.
A grande verdade é que ter as paredes, muros e pilastras grafitadas ou pixadas deixa tudo ainda mais poluído visualmente, e a nossa cidade já está um lixo.
Quando digo nossa cidade eu estou falando da cidade do Rio de Janeiro.
As ruas estão sujas, os muros estão sujos, as pessoas estão sujas. E as pixações e os grafites só deixam tudo ainda mais poluído visualmente. As pessoas que pixam ou grafitam não desenham nada agradável, nada que inspire as pessoas, é só mais coisas perturbadoras e inoportunas.
Mas você vai me dizer que existem excessões.
Devem existir.
Você está vivendo numa cidade que é histórica.
O Rio de Janeiro foi a capital do país do século XVIII até a metade do século passado, nos anos 60. Todo o centro histórico da cidade está se perdendo, indo embora, sendo coberto por concreto, vidro, aço, papel, tinta, lixo e poeira. A nossa história está se apagando.
Você anda pelas ruas e olha para os viadutos e muros da estação de trem e só vê propagandas, cartazes, dizeres evangélicos, pixações e grafites grotescos, com imagens sensuais ou medonhas.
Não é nada tranqüilo, nada que te deixe confortável.
Agora imagine a cena: você teve um dia de merda no seu trabalho, foi massacrado pelo seu chefe, pelos seus clientes, e está indo para sua casa, onde encontrará seus filhos mal educados, a esposa que você já não ama mais. Até lá terá que encarar um ônibus cheio, o trânsito desgraçado que só te deixa mais nervoso, triste e cansado. Mas você mora na cidade maravilhosa, certo?
A cidade que se orgulha de sua beleza e esplendor.
E é quando você olha pro alto e vê o Cristo Redentor lá longe, rodeado de nuvens. Que reconfortante!
Mas a medida que vai baixando os olhos você vê as favelas e os grandes condomínios de luxo ocupando o lugar que antes pertencia à Mata Atlântica, e vê uma careta enorme pintada num muro com cores berrantes olhando de volta pra você.

Ônibus velho, em Buenos Aires, Argentina
Vira o rosto para o outro lado e vê umas criaturas deformadas, amórficas e coloridas dando voltas na coluna de um viaduto, e o trânsito parado, e o barulho das buzinas, e a fumaça dos escapamentos, e o perigo de alguém puxar o seu relógio ou arrancar a bolsa da sua mão, a carteira do seu bolso.
Não há nada que colabore para você se sentir confortável.
Os jardins que margeavam as pistas foram destruídos, os parques são perigosos de se visitar, o Aterro é o habitat dos ladrões, dos batedores de carteira, dos pivetes cheirando cola.
E pra todo lugar que você olhe vê uma pixação, um rabisco ilegível ou uma criatura bizarra e exageradamente colorida te assombrando, de olhos e dentes arreganhados.
Por isso gosto tanto da escrita do Gentileza, que teve a mesma intenção dos pixadores e grafiteiros, de fazer um protesto, mas soube utilizar muito melhor e com muito mais profundidade, espalhando mensagens que nos parece tão ingênuas, mas que são cheias de carinho.
A cidade do Rio de Janeiro está cada dia mais perigosa e descuidada, não tem asseio, não tem habitantes que cuidem dela.
Somente pessoas que mijam nos cantos dos muros e nas árvores, que jogam lixo no chão, que escarram nas calçadas, que tacam as guimbas dos cigarros na rua, que varrem o lixo para o bueiro. Gente suja e acostumando-se cada vez mais a conviver com a porcaria e a imundice.
Quando vejo um cartaz pendurado, ou um estêncil, ou um adesivo colado num muro, fico imaginando que outras coisas mais bonitas e tranqüilas poderiam estar ali.
Falam de atitude, de arte, de protesto, de estética, de revolta, de conscientização.
É esta atitude que querem que a população tenha?
É esta a arte que querem que as pessoas conheçam?
É este protesto que querem usar para conseguir o que precisam?
É esta estética que querem empregar para mudar o ambiente em que vivemos?
É esta a revolução que querem iniciar?
É esta a consciência que querem que tenhamos?
Precisamos de intervenções, mas intervenções que eduquem, que orientem, que inspirem as pessoas às coisas boas e positivas, que ensinem cidadania, respeito ao próximo.
Não vejo em nenhuma parte nada que corrobore para isso.
Infelizmente.

Depredação religiosa, Buenos Aires, Argentina.
Nos grafites eu vejo sempre rostos contorcidos, dedos apontados na minha direção, criaturas deformadas, sorrisos de escárnio, obscenidades, dor e culpa.
Como se estas pinturas, adesivos, estênceis, estivessem nos “lembrando” todo o tempo de que tudo está uma merda, caindo aos pedaços, ruindo e que eu deveria fazer alguma coisa.
Como se já não tivéssemos tudo isso de carne e osso à nossa volta.
Como se com pintar estas coisas o grafiteiro estivesse fazendo a parte dele. Talvez aí esteja a tal atitude de que tanto cantam os rappers e os roqueiros.
Eu não quero esta atitude pra mim.
Eu prefiro não sujar paredes, nem gritar coisas que ninguém quer ouvir, ou fazer versos que ninguém vai entender.
Prefiro fazer das minhas ações coisas positivas e que não intervenham negativamente na vida das pessoas à minha volta.
Prefiro trabalhar duro todos os dias para ter uma vida mais digna, limpa de culpa ou remorsos, porque estou fazendo o meu melhor para melhorar, para ajudar quem precisa e colaborar de alguma forma para que a minha cidade, e a sociedade em que nela habita, não ruir ou empobrecer ainda mais.
Prefiro não cuspir no chão, não jogar lixo na rua, não mijar em árvores ou muros, não colar cartazes, ou fazer barulho, ou agredir, mesmo que verbalmente, quem quer que seja, rabiscar garatujas na parede da casa das pessoas, nos momumentos públicos, nos edifícios históricos da minha cidade, do meu país.
Ninguém é obrigado a engolir a minha “arte”, a escutar o que eu tenho para dizer.
Nós latinos, tão “calientes”, tão intrusivos, invasivos, expansivos, reclamamos da frieza dos europeus, por serem tão introspectivos e preocupados com suas próprias vidas, esquecemos dos nossos próprios limites e os limites dos demais.
E empurramos garganta abaixo as nossas opiniões, sentimentos, medos, provocando “intervenções” na vida das pessoas, nas ruas, nas cidades, esquecendo de cuidarmos de nós mesmos, de ver nas pessoas a nossa própria figura, e de como é desagradável quando nos inflingem algo que não merecemos, quando nos dão algo que não pedimos.
É para pensar o porquê de nestes países em que as pessoas são mais “frias”, as coisas darem mais certo, funcionarem, de terem a história preservada na cultura, nos edifícios, mesmo tendo sido arrasadas por guerras avassaladoras em seus quintais.
E nós aqui, num país sem terremotos, maremotos, furacões ou guerras, sermos tão porcos, mal educados e relaxados com o lugar em que vivemos, com as pessoas com quem convivemos.
Isto eu nunca vi pixado ou grafitado em nenhuma parede.