Publicado por: pachaurbano | 18 Setembro, 2009

Miudezas 1

:: Luanda

E ela falava tanto, mas tanto dela mesma que chegava a incomodar os outros.
Era “eu” pra cá, “meu” pra lá, “minha” aqui, “sou” ali, e se sentia muito superior aos outros.
O ego ia inflando a medida que ia proferindo suas frases.
Certa vez, empolgando-se, encheu demais a boca para falar de si.
Morreu engasgada na primeira pessoa.

:: Um dia desses

Passo por duas meninas conversando animadamente na plataforma da estação de São Cristóvão. Ouço pelas minhas costas o lamento:

- Que desperdício!

Devo ter cara de viado mesmo, mas, por outro lado, poderia ser pior. Aliás, muito pior. Poderia ter sido:

- Ei, colega, tá fazendo força ou tua cara é assim mesmo?

:: Nome próprio

Trânsito infernal, tudo parado em Botafogo, duas mulheres conversam no 409, no banco de trás.

- Minina, vê como são as coisas, né? Olhando aquela praca (que era a da Rua São Clemente) eu me lembrei desse homi que eu vivi com ele. O nome dele era Cremente, olhei pra praca e lembrei dele, – pausou num suspiro profundo e continuou, emocionada – mas ele achava o nome dele muito feio e mudou pra Crebe.

Publicado por: pachaurbano | 2 Abril, 2009

Caíram os mitos

Quem disse que viajar a trabalho é gostoso?

Eu achava que era. Não é, é correria, muito trabalho, muito relatório, muita responsabilidade e nada de diversão. Sempre digo que viajar a trabalho é começar a trabalhar a partir do momento em que se fecha a mala em cima da cama. Só paramos quando abrimos outra vez a mesma mala, em casa, de volta. Claro, existem momentos de descanso e é aí que tentamos desfrutar mais do lugar em que estamos.

Fiz uma viagem por três países da América do Sul, Colômbia, Peru e Chile, em quatro grandes cidades, do dia 2 até o dia 10 de janeiro do ano passado, e alguns mitos caíram para mim. Vamos a eles:

1º Mito: Colômbia é muito quente!

Saí de viagem levando um casaco na mochila, um leve, que costumo usar no inverno carioca. O levei por desencargo de consciência, já que pensei que estava indo para duas cidades extremamente tropicais, Bogotá e Medellín. Ledo engano.

Medellín, 7h da manhã, 8ºC

Medellín, 7h da manhã, 8ºC

Logo que cheguei sofri um golpe cruel. Bogotá, a capital da Colômbia, está a 2.640m acima do nível do mar, temperatura: 6ºC! O clima mais frio que eu já enfrentei em toda minha vida.

Em seguida, dois dias depois, fui pra Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia, a mais avançada industrialmente, 200m mais baixa que Bogotá, e o clima estava em 26ºC (um calor desgraçado, seco) de tarde e de noite 12ºC!

2º Mito: Peruanas não são bonitas.

Ok, era um mito machista e sobre tudo preconceituoso, mas estou sendo sincero, eu achava isso. Andando um pouquinho por Lima, capital do Peru, me dou conta que estou virando a cabeça sempre que uma mulher passa.

Pois é, elas são bonitas, são bem arrumadas, maquiadas (com discrição) e nada vulgares. Algumas mais modestas, trazem rasgos mais indígenas, com seus cabelos negros e nariz mais adunco, mas ainda assim são bonitas. As adolescentes, todas que vi, são muito preocupadas com a aparência, sempre com cortes de cabelo modernos e vestidas com roupas da moda, não necessariamente de marca.

3º Mito: O Chile é frio!

Você vê neve nos montes ao fundo?

Você vê neve nos montes ao fundo?

Vamos lá, sempre que nos mostram fotos de Santiago, a capital do Chile, vemos ao fundo aquelas lindas cordilheiras nevadas. Pois é, levei aquele casaquinho que lhes falei para encarar o suposto friozinho chileno. Me ferrei!

Em Santiago os termômetros marcavam 27ºC com um detalhe mórbido: em nenhum lugar havia ar condicionado! Exatamente, senhoras e senhores, nem mesmo no quarto de hotel em que estava hospedado. Reclamando com a recepção, pedi um ar condicionado portátil e a camareira me trouxe um ventiladorzinho de mesa.

O metrô lá é muito parecido com o nosso, muito limpo e eficiente, com 5 linhas abrangendo boa parte da cidade, mas sem ar condicionado.

4º Mito: Chile, Peru e Colômbia são mais atrasados que o Brasil.

Nada disso! Todas as 4 grandes cidades por que passei são sofisticadas, modernas e arriscaria dizer “americanizadas”.

Em Bogotá e Medellín vi um número muito grande de carros novos – diferente de Buenos Aires, por exemplo – e importados, muitos deles asiáticos. Os tranportes urbanos (ônibus, trêns, taxis) apesar de aparentarem velhice são muito eficientes. Na TV, propagandas de toda sorte de produtos, desde os videogames mais novos até os cosméticos mais modernos. As pessoas andam bem arrumadas, apesar de algumas serem muito pobres, e quase não vi pedintes.

Em Santiago, no Chile, vi o maior número de pessoas utilizando celulares por metro quadrado em toda a minha vida. Notebooks, palmtops, MP3 players, iPods, infestavam os bares, restaurantes, metrô e ruas por onde passei. Notei também que muitos usam seus celulares como players portáteis; sempre cruzava com alguém com fones de ouvidos que levavam até um celular na mão ou no bolso.

Zona nobre de Lima

Zona nobre de Lima

Lima, principalmente próximo a costa do Pacífico, a sofisticação e a modernidade são tangíveis. Ruas limpas, casas pintadas, jardins floridos, lojas de marcas internacionais. Nem em Ipanema vi tantas grifes extrangeiras. Nas zonas mais pobres de Lima vi carros, vans e ônibus novos, apesar de aparentarem uso. Me surpreendi com a limpeza, apesar do alto índice de poluição no ar, as ruas, calçadas e praças são limpas, claro, com as nojentas guimbas de cigarro aqui e ali.

Ah, outro fato interessante: diferente de Buenos Aires e Córdoba, nestas quatro cidades vi bem pouca gente fumando. Vi mais jovens chilenos fumando cigarros na área descoberta de um shopping que em toda a viagem.

5º Mito: Latinos, em geral, são desinformados.

Como se ouve rádio em estes países! Isso eu já havia notado em Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, que em todo lugar tem um rádio ligado. Até mesmo nas lojas de roupas, que aqui no Rio de Janeiro sempre tem um CD de dance tocando, têm algum programa de rádio rolando, com notícias, entrevistas e muita música.

Nos taxis em que andei sempre havia música tocando no rádio, não só do país, mas também de outros lugares. Em Santiago ouvi Roberto Carlos cantando em espanhol, e o taxista disse que quando ele esteve no festival de Viña Del Mar, nos anos 70, foi o melhor show da vida dele. No rádio os programas sempre informam sobre economia, notícias internacionais e política local. Às vezes, entre um trajeto e outro, me pegava acompanhando alguma entrevista ou matéria.

Músicos tocando nas ruas de Buenos Aires

Músicos tocando nas ruas de Buenos Aires

A programação musical é muito variada, mas se escuta muita coisa local. Porém, nas quatro cidades desta viagem escutei muito reggaeton, ritmo que está muito na moda lá fora. Em outubro do ano passado também pude escutar muito este estilo musical em Buenos Aires e Córdoba. Nos países latinos é comum escutar músicas de outros lugares, principalmente o rock vindo da Argentina, do México e da Espanha.

Outro detalhe importante é o consumo de jornais. Nas bancas há sempre uma variedade incrível de periódicos e diários, e é normal encontrar jornais vespertinos. No metrô há sempre muitas pessoas lendo jornais, de todas as idades.

Estes foram os mitos que caíram para mim.

As viagens que fiz, de uma cidade outra, entre um aeroporto e outro, foram muito cansativas, algunas desgastantes, mas serviram para que eu entrasse em contato com estas culturas, que apesar de cosmopolitas, têm lá suas peculiaridades.

Pelas janelas dos hotéis e dos taxis, pude ver cidades bonitas, seculares, reais. Em cada rosto um traço distinto do que estava acostumado a ver, uma história, e sempre que via uma feição familiar, que me fizesse lembrar de algum conhecido, me atacava uma forte saudade de casa.

Publicado por: pachaurbano | 20 Fevereiro, 2009

Pelas ruas de Bogotá

É bem estranho ver na televisão, no cinema ou em outras mídias os lugares pelos quais a gente já passou.

É estranho porque no fundo fica parecendo distante, mas pra você é familiar.

Este clipe é do grupo Sidestepper, da Colômbia, e o clipe foi rodado no centro de Bogotá.

Você pode ver outro ângulo deste mesmo lugar aqui.

Publicado por: pachaurbano | 28 Janeiro, 2009

DOSSIÊ SUBÚRBIO: Os Suburbanos

Televisão fora do ar, Jacutinga, Minas Gerais

Má recepção, Jacutinga, Minas Gerais

É de conhecimento geral o emprego da palavra suburbano, em todos os sentidos, como especialmente um adjetivo pejorativo. Consideradas pessoas de mal gosto ou de pouca educação, os suburbanos são vítima de todas as classes sociais. Entretanto, é no subúrbio que nasce a alma essencialmente carioca, a verdadeira alma ancestral da cidade.

Foi no subúrbio que os negros encontraram abrigo seguro ao se romperem os grilhões que os escravizavam, e onde os imigrantes espanhóis, italianos e especialmente os portugueses fizeram vida nova longe de suas terras natais. A figura do suburbano flutua entre o hilário e o triste, entre o selvagem e o fraternal.

Ao mesmo tempo em que o suburbano anima as festas juninas, os blocos carnavalescos, as partidas de futebol de várzea ou enche as arquibancadas do Maracanã, é o mesmo suburbano que solta balões incendiários – consciente ou inconscientemente -, arranja confusão na embriaguês da folia, e gera o quebra-pau das torcidas organizadas nos dias de campeonato, ou mesmo na pelada do fim de semana.

É o suburbano freqüentador assíduo das portas dos botecos e das missas dominicais. É o suburbano sujeito alegre que, mesmo com a marmita debaixo do braço, talvez sua única refeição por todo o dia, lança um sorriso, tantas vezes desfalcado, a quem passa. E é este suburbano que move o centro da cidade, das funções mais humildes até as funções mais nobres.

O suburbano dentro de seus antagonismos consegue sobreviver diante das dificuldades. Faz o gato na instalação elétrica, faz do copo de geléia um utensílio fundamental da cozinha, põe Bom Bril na antena da TV e utiliza o orelhão como telefone comunitário. No calor o suburbano abre as janelas da casa, dá banho no cachorro, lava as calçadas e a criançada brinca de tomar banho de mangueira. As senhoras se sentam em suas cadeiras de praia no portão e se põem a conversar a vida; a sua e a dos outros.

A solidariedade suburbana é motivo de grande elogio, já que na eminência de grandes catástrofes, – entenda-se enchentes, vendavais, incêndios – a comunidade se une e agita grandes mutirões e campanhas de roupas e mantimentos. E isso vai nas pequenas coisas também, como na xícara de açúcar que um vizinho vem pedir, ou uma carona até à maternidade para uma desconhecida da vizinhança. E claro, a laje nova do compadre.

Por outro lado, estes mesmos suburbanos são os que entram nos estabelecimentos fazendo grande estardalhaço, ou se vestem escalafobeticamente. É o que vai no fundo do ônibus cantando e batucando, ou o que anda na porta do trem, pendurado, com as portas abertas.

Estes são os suburbanos, figuras de extremos, de atitudes nobres e ridículas, de gosto peculiar e curioso, de tradições e heranças culturais.

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Pesquisando no site Wayback Machine encontrei arquivos do meu primeiro blog, o Grita Da Grade, no Blig.

Foi de lá que tirei este post do dia 10 de setembro de 2003.

Publicado por: pachaurbano | 4 Dezembro, 2008

Sorriso amarelo

San Telmo, Buenos Aires, Argentina

San Telmo, Buenos Aires, Argentina

Quando fui à Argentina pela primeira vez, uma amiga me alertou para um fato bem interessante.

- Pacha, olha para os dentes das pessoas de lá. Depois você me fala.

Bom, logo no aeroporto eu já tinha entendido o que ela queria dizer, porque quase todas as pessoas têm dentes muito mal cuidados. São tortos e amarelados, e logo depois eu vim a descobrir dois possíveis motivos para serem assim.

O primeiro é que eles tomam a água que sai da torneira.

A água é muito bem tratada e pode ser usada para cozinhar, limpar e beber sem problemas. Até aí nada. Porém, eles não colocam flúor na água como aqui no Brasil, o que acredito ser um problema. Claro que não bebi água da bica em nenhum lugar da Argentina que eu fui, só água mineral, como todo turista ou visitante estrangeiro deve fazer.

O segundo motivo eu descobri sofridamente.

Quase toda a população é fumante! É bem comum caminhar pelas ruas e ver adolescentes – e estou falando de indivíduos de 14, 15 anos – fumando, bem como grávidas e idosos. Principalmente pessoas com mais idade. Muito recentemente que proibiram as pessoas de fumarem em locais públicos e fechados.

Some a estes dois fatores supracitados o tratamento ortodôntico ser ainda muito caro na Argentina e você tem um número bem grande de pessoas com dentição defeituosa e problemática.

Talvez a forte herança européia, ou a falta de herança africana, seja o grande motivo.

Mas é interessante perceber que argentinos que são originários de outras regiões que não as capitalinas apresentem dentição melhor.

Isso me chamou a atenção porque sempre sofri muito com uma dentição problemática, principalmente vivendo num país como o Brasil em que as pessoas já têm dentes bonitos por natureza, e só agora, depois de velho, que estou conseguindo corrigi-la.

No fim, fiquei meio chocado com o contraste do povo argentino, com sorrisos que não combinam com aqueles rostos bonitos.

Claro, há as excessões, e estas estão na TV e em todos os outdoors publicitários que poluem visualmente a cidade de Buenos Aires.

Publicado por: pachaurbano | 24 Novembro, 2008

Bilhetes de metrô

Próxima parada, Estação Santa Lucia

Próxima parada, Estação Santa Lucia

Antes de viajar a outro país eu sempre tento estudar algo sobre o lugar, a cultura, os costumes, mas mesmo assim você se surpreende com as coisas que encontra.

Em Santiago, Chile, eu desci as escadas do metrô até a estação La Moneda, e vi aquela movimentação apressada, típica das pessoas que querem ir pra casa ou para os seus compromissos, e procurei pela fila do guichê de venda de bilhetes. A fila era razoavelmente grande, e enquanto tentava entender aquele câmbio louco de dólar para peso chileno, reparei que as pessoas passavam pelas catracas sem usar os seus bilhetes.

Rapidamente procurei pelo guarda da estação, que lá estava, devidamente armado e uniformizado, vendo tudo aquilo sem fazer nada. O primeiro em que pensei foi: se esta bagunça acontecesse no Brasil logo alguma pessoa delataria para alguém, que ia armar alguma confusão, e o segurança ia quebrar o braço de alguém, e por aí vai.

Chegou a minha vez, comprei minhas passagens, e fui até as roletas.

Não encontrei a fenda para enfiar o bilhete. Nem nenhum painel magnético como em alguns lugares para liberar a catraca, nada.

Pensei até em passar pela roleta, mas por via das dúvidas – não querendo testar a minha sorte de turista – decidi perguntar ao guarda da estação.

Assim que me aproximei vi que o guarda, na verdade era uma guarda, uma mulher meio grande e maciça, com cara de poucos amigos. Dei boa tarde, e perguntei como eu fazia para poder usar o meu bilhete do metrô e passar pelas catracas.

Ela me olhou com alguma descrença e disse sem qualquer emoção na voz:

- O senhor já comprou o seu bilhete, é só passar pela roleta.

Eu insisti:

- Mas, me diz uma coisa: o que eu faço então com o bilhete?

No fundo, depois de me ouvir perguntando isso eu pensei que ouviria uma grosseria, mas não foi assim que aconteceu. Ela esticou o braço prontamente, como aqueles caras que ficam na pista dos aeroportos gesticulando para os aviões enquanto eles manobram.

- Se o senhor quiser pode depositá-los ali naquela caixa.

Segui o seu braço até uma caixa de acrílico presa numa grade de metal. No fundo da caixa estavam meia dúzia de bilhetes do metrô. Olhei pro chão, pensando encontrar vários jogados pelos cantos, mas não vi nada, a estação e as escadas estavam limpíssimas.

Passei pela roleta, desci até a plataforma e logo veio o meu trem. Dali a oito estações eu baixaria outra vez em uma plataforma e estação tão limpas quanto esta.

Dentro do vagão em que eu me encontrava, algumas pessoas estavam em pé, outras ocupavam todos os assentos, e várias estavam sentadas no chão. A maioria estava lendo revistas, livros, um ou outro jornal e escutando música em seu iPod, celulares ou outros players. Não se ouviam gargalhadas, gente falando alto, criança gritando. Reinava o silêncio na hora do rush.

Fiquei pensando que se fosse no Brasil as pessoas passariam pelas roletas sem pagar, jogariam os bilhetes no chão pra alguém vir catar, entrariam no vagão igual a bichos disputando território, e estaria uma barulheira tão grande como num bloco de carnaval, como é costume aqui no Rio de Janeiro.

Publicado por: pachaurbano | 21 Novembro, 2008

Transe

Relógio parado não adianta.

Relógio atrasado não adianta.

Escolhi um lugar na areia onde não estivesse muito sujo e me sentei na Praia de Icaraí, em Niterói, para esperar uma amiga.

O mar ficou naquele vai e não vai preguiçoso, e lá no fundo se via o Rio de Janeiro. Atrás de mim as buzinas dos carros e a pressa dos ônibus na rua.

Daí eu entrei naquele transe estranho de quando a gente fixa a vista em algum lugar mas não está vendo nada, só aquele filminho dentro da nossa cabeça.

Com o pé sangrando por ter cortado o pé numa concha, uma menina de 8 anos manca até os pais em 1985.

Em 1971 um menino acha uma garrafa com uma cor azulada e olha pela boca para ver o que tem dentro.

E eu vi em 1956 um casal desfazendo o seu noivado e o rapaz atirando sua aliança no mar.

Sendo molhado pela maré alta, um bêbado acorda surpreso em 1907.

Um pescador atira sua rede o mais longe que ele pode, em 1834, e a recolhe vazia.

Velozmente uma gaivota mergulha e pega um peixe em 1749.

Minha amiga me cutuca no ombro em 2005 e eu saio do transe.

Contei pra ela a experiência que eu vivi e ela debochou, me dizendo que se não tivesse chegado naquela hora eu provavelmente estaria tendo visões da pré-história.

Ah, eu não uso drogas, só pra constar.

Publicado por: pachaurbano | 13 Novembro, 2008

Nem tão típico

Medellin, Colômbia

Medellín, Colômbia

No dia do meu aniversário deste ano eu estava muito longe de casa, em Medellín, Colômbia, torcendo para o dia passar mais rápido para eu poder ligar para minha mulher, saber como vão as coisas, matar as saudades.

Durante toda a manhã estive em reuniões, dando treinamentos e ouvindo reclamações do meu cliente, e sempre tentando ser simpático, embora estivesse triste por não estar aproveitando meus recém chegados 30 anos de idade.

Meus contatos locais eram pessoas muito queridas e atenciosas, e se esforçaram em tornar a minha estada com eles a mais confortável e alegre possível, inclusive me levando para comer em um restaurante chamado Mondongo’s, que também é o nome de um prato muito especial.

Eu pedi um prato chamado típico, isso mesmo, um prato típico chamado típico, com um tipo de banana frita que eles chamam de maduro, arroz branco, feijão vermelho, carne moída, uma tira de torresmo bem grande e um ovo frito por cima disso tudo. Espetacular! Até aí nada demais, o curioso vem a seguir.

Um dos meus contatos era uma menina chama Yuri (sim, lá é um nome de mulher também) e ela pediu o tal prato chamado mondongo. Eu não sabia o que era até vê-lo e logo sentir uma alegria grande, porque era um prato muito conhecido por mim e que eu adoro: dobradinha!

Logo em seguida voltou o garçom trazendo abacates, porque é costume em muitos países da América Latina comer abacate com comida. E para a minha surpresa ela tascou uma colherada de abacate na dobradinha, mexeu, pingou limão e pimenta e começou a comer.

Eu fiquei um pouco – digamos – surpreso em ver aquilo, e continuei comendo o meu típico. Ao terminar, peguei um daqueles saquinhos de açúcar, espalhei sobre o meu abacate e comecei a comê-lo. Afinal, abacate pra mim é fruta e fruta pra mim é sobremesa.

De repente, os dois que estavam comigo pararam de comer e ficaram olhando, estarrecidos, e quando me dei conta todos nas mesas em volta também. Cheguei a ficar congelado, com uma colher a meio caminho da boca, assustado e corado de vergonha por todos estarem me observando. O garçom que passou perto e me viu jogando o açúcar no abacate me olhou de cara feia, provavelmente pensando no ridículo que é ver um adulto estragando a comida.

Para eles, abacate com açúcar é algo impensável, como comer feijão preto com leite condensado.

Expliquei para os meus colegas que no Brasil comíamos abacate assim, com açúcar, ou com leite, em forma de vitamina, ou então com mel, enfim, era doce, e que lá quase ninguém comia abacate com cebola, tomate, limão e pimenta, a famosa guacamole. E eles não entendiam, não aceitavam.

Dei para eles provarem.

O meu amigo Yonathan não gostou, fez uma careta horrível, como quando a criança não gosta de alguma coisa, e a Yuri até que conseguiu comer algumas colheradas, mas considerou demasiadamente enjoativo. Eu expliquei a eles que se eles colocassem abacate na dobradinha no Brasil provavelmente as pessoas que estivessem envolta vomitariam.

Eles não riram.

No aeroporto à noite, enquanto aguardava o meu vôo para Bogotá, faltando bem pouco para o meu aniversário acabar, me peguei relembrando este episódio do abacate e pensando em como esta história seria boa para se contar em festas e reuniões de amigos. Eu sou bobo, eu sei.

Meu aniversário passou sem parabéns pra você ou bolo, ou meus amigos perto para me desejarem felicidades, mas aprendi coisas novas, estava imerso em outra cultura, o que não deixa de ser sempre um presente e tanto.

Publicado por: pachaurbano | 12 Novembro, 2008

Dona Rocío

Miraflores, Lima, Peru

Miraflores, Lima, Peru

Eu estava viajando a trabalho em Lima, no Peru, e acabara de tomar um café numa destas cafeterias com mesinhas na calçada que existem em Miraflores, depois de um dia difícil e caminhava tranqüilamente, quando ela me deu boa tarde e entregou minha carteira.

Levei um susto danado quando me dei conta do fato, afinal, na minha carteira estavam não só o meu cartão de crédito, mas também boa parte do meu dinheiro, em dólares e em soles, e alguns documentos.

Havia deixado distraidamente a carteira na beira da mesa, na hora de pagar a conta. Ela que passava por ali vendendo doces, correu meia quadra para entregá-la a mim.

Ela vestia uma roupa muito surrada pelo uso e os cabelos presos em duas tranças longas que lhe caíam pelo ombro, como é muito comum entre os andinos. Tinha completado 44 anos no novembro anterior e a vida dura a fazia parecer ter muito, muito mais idade.

Se quisesse ter água para sua higiene pessoal e a dos seus sete filhos, de pais diferentes (ela era muito “namoradeira”, me contou), e claro, para cozinhar, Dona Rocío tinha que caminhar mais de 500 metros todas as manhãs, levando nas costas um cesto feito de palha cheio de garrafas de refrigerante de dois litros de água potável.

A água era retirada de uma vasamento permanente na favela em que morava em Lima.

Quando saiu da vila em que nasceu nos Andes e foi morar na capital, isso nos anos 70, Dona Rocío achou que não agüentaria. Mas ela agüentou e está agüentando. Vendia doces das 10h às 20h. A cidade grande não a corrompeu, e segundo ela, nem a seus filhos:

- Todos foram educados por mim e estão na escola aprendendo a serem melhores.

Agradeci diversas vezes pela carteira, e quando tentei lhe dar algum dinheiro em gratidão, ela segurou minha mão com o dinheiro nas suas e disse pra mim com aquele sotaque dos andes que ela não perdeu:

- Se a gente precisar pagar pela gentileza que nos fazem, onde este mundo vai parar, senhor?

Não tinha mais o que dizer, afrouxei a minha gravata e sorri.

Publicado por: pachaurbano | 11 Novembro, 2008

Poluição visual

Protesto em Santiago, Chile

Protesto em Santiago, Chile

Vou ser sincero com você, eu odeio pixações e grafites, que considero a mesma coisa.

Você vai me chamar de careta, como muita gente me chama, afinal, grafite está na moda, é o ápice da “arte de rua”, da “intervenção” e diferencia-se da pixação por ter sido elevada ao patamar de arte.

A grande verdade é que ter as paredes, muros e pilastras grafitadas ou pixadas deixa tudo ainda mais poluído visualmente, e a nossa cidade já está um lixo.

Quando digo nossa cidade eu estou falando da cidade do Rio de Janeiro.

As ruas estão sujas, os muros estão sujos, as pessoas estão sujas. E as pixações e os grafites só deixam tudo ainda mais poluído visualmente. As pessoas que pixam ou grafitam não desenham nada agradável, nada que inspire as pessoas, é só mais coisas perturbadoras e inoportunas.

Mas você vai me dizer que existem excessões.

Devem existir.

Você está vivendo numa cidade que é histórica.

O Rio de Janeiro foi a capital do país do século XVIII até a metade do século passado, nos anos 60. Todo o centro histórico da cidade está se perdendo, indo embora, sendo coberto por concreto, vidro, aço, papel, tinta, lixo e poeira. A nossa história está se apagando.

Você anda pelas ruas e olha para os viadutos e muros da estação de trem e só vê propagandas, cartazes, dizeres evangélicos, pixações e grafites grotescos, com imagens sensuais ou medonhas.

Não é nada tranqüilo, nada que te deixe confortável.

Agora imagine a cena: você teve um dia de merda no seu trabalho, foi massacrado pelo seu chefe, pelos seus clientes, e está indo para sua casa, onde encontrará seus filhos mal educados, a esposa que você já não ama mais. Até lá terá que encarar um ônibus cheio, o trânsito desgraçado que só te deixa mais nervoso, triste e cansado. Mas você mora na cidade maravilhosa, certo?

A cidade que se orgulha de sua beleza e esplendor.

E é quando você olha pro alto e vê o Cristo Redentor lá longe, rodeado de nuvens. Que reconfortante!

Mas a medida que vai baixando os olhos você vê as favelas e os grandes condomínios de luxo ocupando o lugar que antes pertencia à Mata Atlântica, e vê uma careta enorme pintada num muro com cores berrantes olhando de volta pra você.

Ônibus velho, em Buenos Aires, Argentina

Ônibus velho, em Buenos Aires, Argentina

Vira o rosto para o outro lado e vê umas criaturas deformadas, amórficas e coloridas dando voltas na coluna de um viaduto, e o trânsito parado, e o barulho das buzinas, e a fumaça dos escapamentos, e o perigo de alguém puxar o seu relógio ou arrancar a bolsa da sua mão, a carteira do seu bolso.

Não há nada que colabore para você se sentir confortável.

Os jardins que margeavam as pistas foram destruídos, os parques são perigosos de se visitar, o Aterro é o habitat dos ladrões, dos batedores de carteira, dos pivetes cheirando cola.

E pra todo lugar que você olhe vê uma pixação, um rabisco ilegível ou uma criatura bizarra e exageradamente colorida te assombrando, de olhos e dentes arreganhados.

Por isso gosto tanto da escrita do Gentileza, que teve a mesma intenção dos pixadores e grafiteiros, de fazer um protesto, mas soube utilizar muito melhor e com muito mais profundidade, espalhando mensagens que nos parece tão ingênuas, mas que são cheias de carinho.

A cidade do Rio de Janeiro está cada dia mais perigosa e descuidada, não tem asseio, não tem habitantes que cuidem dela.

Somente pessoas que mijam nos cantos dos muros e nas árvores, que jogam lixo no chão, que escarram nas calçadas, que tacam as guimbas dos cigarros na rua, que varrem o lixo para o bueiro. Gente suja e acostumando-se cada vez mais a conviver com a porcaria e a imundice.

Quando vejo um cartaz pendurado, ou um estêncil, ou um adesivo colado num muro, fico imaginando que outras coisas mais bonitas e tranqüilas poderiam estar ali.

Falam de atitude, de arte, de protesto, de estética, de revolta, de conscientização.

É esta atitude que querem que a população tenha?
É esta a arte que querem que as pessoas conheçam?
É este protesto que querem usar para conseguir o que precisam?
É esta estética que querem empregar para mudar o ambiente em que vivemos?
É esta a revolução que querem iniciar?
É esta a consciência que querem que tenhamos?

Precisamos de intervenções, mas intervenções que eduquem, que orientem, que inspirem as pessoas às coisas boas e positivas, que ensinem cidadania, respeito ao próximo.

Não vejo em nenhuma parte nada que corrobore para isso.

Infelizmente.

Depredação religiosa, Buenos Aires, Argentina.

Depredação religiosa, Buenos Aires, Argentina.

Nos grafites eu vejo sempre rostos contorcidos, dedos apontados na minha direção, criaturas deformadas, sorrisos de escárnio, obscenidades, dor e culpa.

Como se estas pinturas, adesivos, estênceis, estivessem nos “lembrando” todo o tempo de que tudo está uma merda, caindo aos pedaços, ruindo e que eu deveria fazer alguma coisa.

Como se já não tivéssemos tudo isso de carne e osso à nossa volta.

Como se com pintar estas coisas o grafiteiro estivesse fazendo a parte dele. Talvez aí esteja a tal atitude de que tanto cantam os rappers e os roqueiros.

Eu não quero esta atitude pra mim.

Eu prefiro não sujar paredes, nem gritar coisas que ninguém quer ouvir, ou fazer versos que ninguém vai entender.

Prefiro fazer das minhas ações coisas positivas e que não intervenham negativamente na vida das pessoas à minha volta.

Prefiro trabalhar duro todos os dias para ter uma vida mais digna, limpa de culpa ou remorsos, porque estou fazendo o meu melhor para melhorar, para ajudar quem precisa e colaborar de alguma forma para que a minha cidade, e a sociedade em que nela habita, não ruir ou empobrecer ainda mais.

Prefiro não cuspir no chão, não jogar lixo na rua, não mijar em árvores ou muros, não colar cartazes, ou fazer barulho, ou agredir, mesmo que verbalmente, quem quer que seja, rabiscar garatujas na parede da casa das pessoas, nos momumentos públicos, nos edifícios históricos da minha cidade, do meu país.

Ninguém é obrigado a engolir a minha “arte”, a escutar o que eu tenho para dizer.

Nós latinos, tão “calientes”, tão intrusivos, invasivos, expansivos, reclamamos da frieza dos europeus, por serem tão introspectivos e preocupados com suas próprias vidas, esquecemos dos nossos próprios limites e os limites dos demais.

E empurramos garganta abaixo as nossas opiniões, sentimentos, medos, provocando “intervenções” na vida das pessoas, nas ruas, nas cidades, esquecendo de cuidarmos de nós mesmos, de ver nas pessoas a nossa própria figura, e de como é desagradável quando nos inflingem algo que não merecemos, quando nos dão algo que não pedimos.

É para pensar o porquê de nestes países em que as pessoas são mais “frias”, as coisas darem mais certo, funcionarem, de terem a história preservada na cultura, nos edifícios, mesmo tendo sido arrasadas por guerras avassaladoras em seus quintais.

E nós aqui, num país sem terremotos, maremotos, furacões ou guerras, sermos tão porcos, mal educados e relaxados com o lugar em que vivemos, com as pessoas com quem convivemos.

Isto eu nunca vi pixado ou grafitado em nenhuma parede.

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