Publicado por: pachaurbano | 15 julho, 2010

A garota do metrô

Hoje no metrô vindo para casa, procurando desanuviar a mente dos aborrecimentos dos últimos dias ouvindo música, com o pensamento distante pousei os olhos em uma garota que sentou-se num banco de frente para o meu.

Tinha olhos grandes e escuros, vivos, a pele clara e um rosto com traços bem definidos. O triângulo que fazia a combinação harmônica dos seus olhos, nariz e lábios me fizeram sorrir sem querer, e realmente não sei se ela se deu conta disso. Procurei disfarçar, não encará-la demais, mas era muito difícil não observá-la.

De repente me deu uma vontade incrível de desenhá-la, de tentar passar para além da lembrança aquelas feições, aqueles traços. Não trazia comigo meu caderno de desenho, tampouco nenhuma outra folha na qual pudesse esboçá-la. Arrependi-me terrivelmente por este erro crasso pelo qual nenhum desenhista deveria passar.

Algumas pessoas entraram no vagão e esconderam de mim sua figura, no que confesso, tentei observá-la por entre braços e bolsas, mas sem muito sucesso.

Já estava perto de descer e sem pensar muito, pesquei um dos meus cartões de visita na mochila e lhe escrevi: “Achei você tão bonita que senti vontade de desenhá-la.” Pedi licença para algumas pessoas e lhe entreguei. Ela hesitou, mas continuei com minha mão estendida e ela o aceitou.

Acredito que as pessoas estejam tão preocupadas com suas vidas, com seus medos, com seus pânicos sociais, que não haja mais espaço para estes arroubos românticos. Talvez eu esteja fora do meu próprio tempo, talvez este não seja nem um hábito sadio, porque poderia ser confundido com um doido varrido. Por outro lado, não pude resistir a este impulso, negar quem eu sou, minha sensibilidade, minha franqueza − que se estende para além das coisas que em que acredito, que digo, até meus atos.

No meu gesto não havia segundas intenções, malícia. Ali eu era o Pacha artista.

Não posso me considerar um bom retratista, porém, aquela garota me fez sentir realmente o desejo de transferir sua beleza para o papel, torná-la uma gravura, pintura, arte.

Vim pelo caminho pensando que ela seria perfeita como modelo da personagem do meu segundo projeto na agenda; uma história em quadrinhos sobre duas mulheres que se reencontram depois de terem optado por seguir caminhos completamente diferentes em suas vidas. Seria ideal, porque ao mesmo tempo em que parecia frágil, ocultava uma força natural.

Instantes antes de descer, ainda tentei ver se estava lendo o que havia escrito ou se simplesmente amassara e jogara fora o cartão, ou se o metera em sua bolsa, queria saber sua reação. Teria gostado? Teria ficado envergonhada? Teria ficado com raiva pela ousadia?

Entretanto, fiquei somente com a imagem do seu olhar assustadiço no momento em que lhe entreguei o cartão por entre as pessoas que estavam de pé.

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Responses

  1. esse é o meu amigo. e é por isso que me orgulho dele.

    • Me sinto orgulhoso em ouvir isso, querida.
      =¨¨)

  2. É impressionante como somos parecidos, tenho constantemente estes impulsos, mas confesso que por muitas vezes os adormeço já que fico um pouco receosa achando que estes podem ser erroneamente confundidos com o ato de “dar mole”, ousadia, ou qualquer outro julgamento e no final, sempre me arrependo de não segui-lo.

    Beijos meu velho e querido amigo.

    • Sei bem como é isso, Kelen. Mas acaba que voltar pra casa com o arrependimento latejando na cabeça, no coração, é bem pior, não é?
      “Da próxima vez que alguém lhe oferecer flores, isso é IMPULSE!”
      ;)

  3. Pacha… você não é o único que pensa, ou sente, assim. Já passei, e ainda passo, por situações parecidas. Talvez eu tenha perdido boa parte desse olhar, que contém a pureza dos artistas, muito em função de não sofrer. Entretanto, acho que devemos seguir os novos sentimentos, e sempre que possível permitir a liberação desses impulsos. Abraço, meu querido!

    • Concordo totalmente com você, Leo. Você sendo artista entende perfeitamente estas epifanias as quais somos acometidos. Mesmo que você diga que tenha perdido isso, lá no fundo está inoculada esta vibe. Se ela quiser sair, deixe-a voar!
      Um abração, meu amigo.

  4. Entender um artista não é fácil, aceitá-lo é um desafio para o ser humano qualquer. Dependendo da cultura o desafio é maior.
    Amado, espero que sua musa do metrô lhe dê a chance de desenhá-la e, quem sabem, de entendê-lo.

    Beijos!

    • Ah, Bê, que sabias e tristes palavras. Fico pensando em quantos devem vagar por aí com estas sensações presas na garganta, ou ainda, sendo vítimas do escárnio e do julgo alheio, como eu fui (e sou) tantas vezes. Não acredito que ela entrará em contato nem nada, mas seria ótimo que o fizesse.
      Um beijo e seja sempre bem vinda por aqui.
      =)

  5. Caramba Pacha, que texto gostoso de ler, que sensibilidade. Somos seres humanos parecidos, seria muito bom te conhecer mais, gosto de vc. Somos afinal todos artistas.

    Parabéns

    • Marcus, meu querido, você tem meu email. Não faça como a garota do metrô: use-o! Somos criaturas raras, amigo, e temos que nos fortalecer com bom papo e experiências trocadas.
      Obrigado mesmo pela sua visita e mais ainda pela solidariedade no sentimento artístico.
      Um abraço!

  6. Danado!

  7. conta depois pra gente se ela te ligou, hein?! ;o)

    • Oi Bia!
      Claro que contarei! Estamos todos ansiosos, não estamos?
      Beijões e obrigadão pela visita.
      =)

  8. Seu encantamento foi tanto diante dessa garota que o texto consegue transmitir completamente isso. =]

    • Gerlaine, vim pelo caminho tão sedento por expressar o que sentia que acho que acabei deixando escorrer isso para as palavras. Infelizmente não tive o mesmo sucesso com os desenhos. Nenhum dos meus esboços de memória chegaram perto do rosto dela.
      E bem, acho que ela não me contatará mesmo, então é torcer para que a roda da fortuna faça-me encontrá-la novamente.
      Um beijo e obrigado pelo comentário.
      =)

  9. Danado! [2]

  10. Rapaz, sempre quis ter cojones pra fazer esse tipo de coisa. Fiquei me devendo, mas hoje, já fui muito bem pago por nunca tê-lo feito. Tomara que haja o retorno.

    Abraço amiguinho!

    • Infelizmente, Gugu, ainda não aconteceu dela entrar em contato, e acho mesmo que não entrará. Mas me sinto feliz de ter tido coragem de me expressar de alguma forma. Vamos ver se continuarei destemido assim, né? hehehehe
      Abração, meu amigo!

  11. Quantas vezes já tive vontade de fazer o que você fez , de deixar um bilhete ou até de sorrir para alguém na rua . Mas nunca tive coragem . E agora fico aqui pensando nas oportunidade que perdi em não ter arriscado. Muito belo o texto!

    • De tanto voltar pra casa com diálogos mentais que nunca aconteceram, de tanto me penalizar por não ter tido coragem de ir lá e dizer alguma coisa é que eu decidi fazer isso. E decidi mesmo: não deixarei mais de fazê-lo. =)
      Por tanto, não deixe mais a timidez ou medo te intimidarem. Quando a oportunidade surgir, Petit, aceite-a.


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