Publicado por: pachaurbano | 21 junho, 2010

Diagnóstico

Desabafava com um amigo outro dia:

– Cara, ando meio esquisito, pensativo, sem paciência para o convívio social. Acho que me bateu a melancolia…

– Que melancolia nada, o que você tem é misantropia!

Fiz que sim com a cabeça e fiquei quieto.

Publicado por: pachaurbano | 18 junho, 2010

O dia em que (não) conheci José Saramago

Em 2001 tive a oportunidade de ler um dos melhores livros que já li em toda a minha vida. E me chegou às mãos não muito de mansinho, através de muitas recomendações efusivas, de entusiasmadas narrações de trechos, passagens. Claro que quando algo que você não conhece – principalmente livros ou filmes – nos é sugerido assim as chance de ser uma decepção é enorme.

Na ocasião eu trabalhava como ilustrador para o portal feminino Bolsa de Mulher e uma colega me emprestou o livro Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Até então nunca tinha ouvido falar dele. Tinha lido vários clássicos da literatura estrangeira e nacional, de Machado de Assis a Flaubert, de Kafka a Érico Veríssimo, de Jorge Amado a Stevenson. Porém, da literatura portuguesa propriamente eu só tinha lido aquilo que nos enfiam garganta abaixo na época de escola.

Este livro me impactou tanto que eu passava as horas em que não o estava lendo pensando nele, nos personagens, na trama, na maneira como fora escrito (em português de Portugal, sem travessões, sem interrogação, aspas, só com vírgulas e pontos), nas ideias fascinantes do autor. Em uma semana eu já o devorara e começara de novo a lê-lo. Até hoje não sei quantas vezes o li. Desde então tenho lido tudo o que ele escreve, inclusive seu blog.

Em abril de 2009, tive a oportunidade de acompanhar minha ex-esposa em sua viagem a trabalho a Portugal, onde aconteceria a Feira do Livro de Lisboa. A todo instante ouvia pessoas conhecidas dela comentando sobre a feira, sobre os autores que já passaram por lá e claro, sobre José Saramago. Alguém contou que no ano anterior havia passado mais de uma hora conversando com ele no stand de sua editora, e que o velhinho era uma simpatia, apesar do que dizia sua fama de turrão. Claro, enchi-me de expectativas.

José Saramago por Sebastião Salgado

José Saramago na cidade espanhola de Lanzarote, nas Ilhas Canárias, em 1996 (Foto: Sebastião Salgado)

Enquanto minha ex estava trabalhando, vaguei pela feira, passava várias vezes pelo stand e todos diziam que era provável que aparecesse. Conheci um romeno que falava português com sotaque de Portugal, que lhe dava um ar infantil, como se fosse uma criança imitando um português falando, e ele me disse que estava ali só para pegar o autógrafo do livro novo dele, A Viagem Do Elefante. Contou-me que no ano anterior pegara uma dedicatória para sua esposa numa reedição de luxo de Ensaio Sobre A Cegueira, e também do DVD de Fernando Meirelles, baseado na obra.

O mestre não apareceu aquele dia, e no seguinte soubemos que ele não estava bem de saúde e que permaneceria em Lanzarote, nas Canárias, onde vivia com sua esposa, Pilar. Ao que tudo indicava o seu estado era grave, assim como o peso da notícia. Fiquei terrivelmente triste, porque por um breve período estive tão perto de conhecer meu ídolo. Afinal, estava em sua terra, em sua feira de livros, diante do seu editor. Quando teria oportunidade de encontrá-lo outra vez?

Nunca mais a terei de fato.

Hoje faleceu o maior escritor de língua portuguesa dos séculos XX e XXI na minha humilde opinião.

Morreu também um dos maiores defensores dos injustiçados do mundo, terrivelmente pessimista a cerca da evolução moral do homem moderno.

Faço luto por José Saramago e por todos aqueles que ainda não conhecem sua obra.

Publicado por: pachaurbano | 31 maio, 2010

Domingueiros

Só mesmo meus amigos queridos para tornar minha cama uma mesa de picnic, minha cozinha um parque de diversões e meu coração um carnaval.

=)

Publicado por: pachaurbano | 24 maio, 2010

Você é a pessoa favorita de alguém?

Curta metragem dirigido por Miguel Arteta e escrito por Miranda July. No elenco, John C. Reilly, Miranda July, Mike White e Chuy Chavez.

Somos mesmo a pessoa favorita de alguém? Quem abriria mão de outra coisa, de outra pessoa, por nós? De quantas pessoas somos a pessoa favorita? Quantas são as nossas pessoas favoritas?

Publicado por: pachaurbano | 19 maio, 2010

Contrastes (parte 1)

Acabo de me mudar para um bairro na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, onde vivi a maior parte da minha vida, deixando para trás a Zona Sul, onde vivi por quase seis anos. É engraçado pensar que separados por uns poucos quilômetros existam comportamentos e costumes tão diferentes.

No metrô, por exemplo, é clara a diferença social. Seja no vestir, no comportamento, nos livros ou jornais que as pessoas vêm lendo.

No Rio de Janeiro a geografia define em muito a condição social do indivíduo. Existe pequenas zonas de classe média e classe alta, e oceanos de classe baixa e baixíssima. Basta atravessar o Túnel Rebouças, que separa a Zona Sul da Zona Norte, que esta diferença é brutalmente sentida. Já escutei muitas vezes pessoas da Zona Sul dizendo que não há nada depois do Túnel Rebouças. E conheço muita gente que já viveu em várias partes do mundo mas que nunca esteve em Madureira, por exemplo.

Outro dia conversávamos animadamente, depois do expediente, alguns colegas de trabalho de diferentes partes do Brasil. Na mesa se encontravam dois cariocas, um soteropolitano, um cuiabense, uma catarinense e um paulista. Todos afirmaram a mesma coisa: a estranheza que eles tiveram ao vir morar no Rio de Janeiro e ouvir as mesmas perguntas: “O que você faz? Onde você mora?”

Os únicos cariocas na mesa, um amigo e eu, não nos dávamos conta que realmente temos o costume de fazer estas perguntas, nesta ordem. Eles diziam que nós cariocas temos muito arraigado em nossos costumes a geografia, a segmentação das pessoas por bairros. De fato fazemos isso o tempo inteiro, nem nos damos conta.

Talvez por vivermos em uma cidade perigosíssima, temos já mentalmente um mapa das zonas perigosas e catalogamos as pessoas por estes lugares, às vezes nos sensibilizando por seu drama diário, às vezes agindo com preconceito e desrespeito.

Mercado de Sonora, Cidade do México

Outro coisa interessante é que na Zona Norte, num supermercado, por exemplo, a maioria que trabalha é negra, quando na Zona Sul a maioria é de origem nordestina. Estes detalhes tão corriqueiros causam estranheza a quem é de fora, quem vem de outro lugar.

Quando estive na Cidade do México eu visitei um mercado popular chamado Mercado de Sonora. É um lugar imenso, parecendo um enorme hangar, cheio de tendas de legumes, carnes, verduras, produtos típicos de várias partes do México, e lá era frequentado por todo tipo de gente. Desde as pessoas paupérrimas às de classe alta, cozinheiros famosos, de restaurantes finos, que iam até o mercado garimpar especiarias.

As pessoas conviviam, mas não interagiam. Não como seria aqui no Rio de Janeiro.

Este mercado ficava numa zona perigosa, um barrio, como eles chamam – o que para nós seria uma favela, só que plana.

Andava tranquilamente pelas ruas e pelos arredores do mercado, no que meu amigo mexicano, preocupado, me apressava, dizia que ali era arriscado. Quase não havia policiamento e era notória a situação econômica daquelas pessoas.

Claro que eu sabia do perigo do lugar, realmente tinham uns quantos sujeitos estranhos, mas para mim aquilo não era novidade, aquelas pessoas não assustavam tanto quanto a ele, porque aqui no Rio de Janeiro convivemos com isso todo o tempo. Basta caminhar alguns minutos pelas áreas atrás da Central do Brasil, ou no entorno da Rodoviária Novo Rio.

Os contrastes são enormes, mas já não nos tocam mais.

Publicado por: pachaurbano | 7 maio, 2010

Trilha sonora de hoje: Tame Impala – Solitude Is Bliss

Não sei de onda a banda é, não ouvi outras músicas deles, mas este clipe me pegou em cheio. Ele entra fácil para a farta lista de coisas que eu gostaria de ter feito. A banda se chama Tame Impala e o nome da música é “Solitude Is Bliss”.

Deixo com vocês também a letra:

Solitude is Bliss
Tame Impala

Cracks in the pavement underneath my shoe
I care less and less about
and less about you
No one else around to look at me
So I can look at my shadow as much as I please

All the kicks that I can’t compare to
Making friends like you’re all supposed to
but
You will never come close to how I feel

Space all around me where my soul can breath
I’ve got body but my mind can leave
Nothing else matters I don’t care what I miss
Company’s OK, Solitude is bliss
There’s a party in my head
and no one is invited
and
You will never come close to how I feel

Movement doesn’t flow
Quite like it does when I’m alone
I’ll be the one that’s free
You and all your friends can watch me
Today

No laughs
by yourself

You will never come close to how I feel

Publicado por: pachaurbano | 26 abril, 2010

Partir

Venho aqui fechar o dia de hoje com o mesmo sentimento com que fechei tantas caixas.

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

Publicado por: pachaurbano | 16 abril, 2010

Vandalismo não é protesto

Na madrugada de quarta-feira para quinta-feira vândalos subiram o corcovado e picharam a estátua do Cristo Redentor em várias partes, entre elas o rosto, o peito, as mãos e os braços. O motivo? Não se sabe.

Se se quisesse agredir a Igreja Católica pelos recentes casos de pedofilia que estão vindo a público, seria compreensível. Ou mesmo se fosse para chamar a atenção das autoridades (in)competentes pelas tragédias que se deram durante as terríveis tempestades que se abateram sobre o Rio de Janeiro. Não foi por nenhum destes motivos. Foi apenas para mostrar que podem fazer e que não há nada nem ninguém que os impeça de fazê-lo.

Cristo Redentor Pixado. Foto de O Globo.

O Cristo Redentor está em obras de reforma e limpeza, e os delinqüentes que fizeram isso subiram pelos andaimes e trabalharam tranqüilamente durante algumas horas para conseguir abranger toda a estátua com suas garatujas. A Prefeitura e a instituição responsável pela manutenção do monumento alegam terem invadido e pichado durante a troca de turno dos seguranças.

Ora, quanto tempo dura uma troca de turno dos seguranças de uma das Sete Maravilhas do Mundo? Poderiam, inclusive, terem posto explosivos em volta da cabeça da estátua e terem-na explodido, decapitando-a, que só veríamos no dia seguinte.

Fosse possível um sistema de justiça eficiente, bem como uma polícia confiável, este tipo de vandalismo não seria tão facilmente praticado.

Um breve passeio pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro e veremos centenas de edifícios históricos, entre sobrados do século XVIII e XIX e igrejas, completamente depredados. A Lapa, o Estácio, Saúde, Bairro de Fátima, e muitos outros, estão desconfigurando-se, transformando-se num amontoado de escombros, favelizando-se.

Eu, um amante das cidades, só faço lamentar-me por isso.

Publicado por: pachaurbano | 16 abril, 2010

NERD No Ringue

Para quem ainda não sabe, mantenho uma coluna no portal de música Punknet chamada NERD No Ringue.

Lá despejo toneladas de fatos que marcaram minha infância e adolescência, além de doses cavalares de nerdice. Sempre uma coluna emendando na outra como se fosse uma série.

Qual foi a primeira música que eu baixei da internet? Qual o primeiro CD que ganhei? Como se conseguia descobrir o nome de uma música antigamente? Quando dei o meu primeiro beijo? Quem era o tio sádico que fiscalizava os hormônios dos meus primos? Quem eram as musas que faziam os garotos da minha geração gastarem zinco? Como se faz para ganhar um soco na testa ao som de Pixies? Tá tudo lá!

Segue a baixo o link de todas:

#001 – O primeiro MP3 a gente nunca esquece

#002 – Músicas para elevar a dor

#003 – Não é magia, é tecnologia!

#004 – Jogos, brinquedos e dois bolsos fumegantes

#005 – Sexo, mentiras e videocassetes

#006 – Desventuras em sério

#007 – Um beijo não é o bastante

#008 – Não morre tão cedo

#009 – Temporada de caça

Leiam e voltem aqui pra me dizer o que acharam.

Publicado por: pachaurbano | 27 março, 2010

Trilha sonora de hoje: Gram – Vivo De Novo

Como a maioria das pessoas que eu conheço, entrei em contato com a banda Gram quando assisti ao famoso “clipe do gatinho“, que de tão emocionante virou cult rapidamente.

Mas esta banda não é daquelas de um só sucesso e conseguiu conquistar muitos fãs com suas letras introspectivas e som poderoso.

A trilha sonora de hoje é um bom exemplo disso. A música “Vivo De Novo“, para a qual já tenho em minha cabeça todo um roteiro de um clipe em animação.

Se vocês quiserem saber mais sobre a banda é só ir aqui: http://www.gramaovivo.com.br

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